ASTER COVE, CA.
PRIMAVERA DE 2006
Elowen nunca foi exigente com comida. Comia o que aparecesse. Do mais simples ao mais esquisito. Ainda assim, havia pequenas preferências instintivas, dessas que surgem antes mesmo de virarem pensamento.
Apesar disso, naquele dia, ignorou todas. Escolheu o mais improvável.
Sorvete de ube.
A cor vinha antes de todo o resto. Um roxo vibrante, quase neon, artificial demais para parecer de verdade. Causava uma estranheza instantânea. E, a despeito disso, havia algo hipnótico na forma como brilhava sob a luz do entardecer.
Ela passou a língua devagar pela superfície, experimentando. O gosto se abriu denso, doce na medida certa, com um fundo sutil de noz envolvido por baunilha e uma cremosidade que se espalhava sem esforço. Frio no primeiro toque. Depois, macio, quase rendendo.
O sorvete começou a ceder rápido à brisa do fim da tarde. Um fio roxo escorreu pela lateral, alcançando seus dedos.
Elowen não se apressou. Levou a mão à boca, limpando sem urgência, sentindo o gosto se repetir, agora mais leve. A língua já estava manchada. Ela percebeu tarde demais, passando a ponta dos dentes por ela, meio distraída.
Aster Cove ainda era novidade, mas já não era estranha. A cidade não se entregava de uma vez. Ia se revelando em detalhes, como se exigisse tempo.
O céu foi a primeira coisa que ela notou. Não tinha nada a ver com Phoenix. Não era aquele azul duro e seco, que parecia quebrar com o calor. Ali, o azul tinha peso. Era úmido, profundo, quase palpável. Dava a sensação de que o ar realmente entrava nos pulmões.
As árvores vieram depois. Altas, alinhadas ao longo das ruas largas, movendo-se com um ritmo próprio. O vento passava por elas em ritmo próprio, trazendo junto o cheiro salgado do oceano. Constante, mesmo à distância. Não era forte. Era persistente. Ficava.
Fevereiro ali não se decidia. Não era verão, mas também não chegava a ser inverno. A luz do dia tinha um tom dourado suave, que se estendia pelas fachadas e pela pele. À tarde, o vento do mar tocava de leve, fresco o suficiente para ser sentido, não para incomodar. À noite, o frio vinha limpo, confortável e sem violência. Nada parecia extremo.
As árvores não estavam secas, nem em flor. Permaneciam suspensas nesse meio-termo, como se esperassem algo, ou como se a cidade inteira estivesse sempre à beira de começar de novo.
Elowen observou ao redor, em silêncio, com o gosto doce ainda presente na boca e o frio do sorvete desaparecendo aos poucos na língua.
Ela já tinha aceitado o lugar. Pela primeira vez em muito tempo, aquilo não parecia provisório.
Já tinha explorado quase tudo que o horário permitia. Andou sem pressa, deixando o próprio corpo decidir o caminho. Entrou em lojas de conveniência com pequenas estações de preparo, onde o cheiro de comida quente se misturava com café passado na hora. Passou por sorveterias — foi ali que resolveu experimentar aquele sabor estranho — e por lojas de cosméticos coreanos, onde testou texturas na ponta dos dedos sem real intenção de comprar.
O centro ficava próximo da casa nova, fácil de alcançar a pé. Em algum momento, pensou em seguir até a orla. O mar já não era novidade desde que chegara a Aster Cove, mas ainda exercia um tipo de atração constante.
No entanto, algo a fez parar antes.
A fachada chamou primeiro.
“Kitsune Books”.
O nome piscava em luzes fortes, intermitentes, recortando o começo da noite. Logo abaixo, havia uma sequência de símbolos que ela não reconhecia de imediato. Traços firmes e organizados. Provavelmente algum dos sistemas de escrita japoneses. Havia intenção ali. Estilo. Um convite claro, bastante insistente.
Elowen inclinou levemente a cabeça e avaliou.
Deixou a orla para outro dia. Já tinha visto o suficiente do mar por enquanto. Talvez voltasse com mais tempo, talvez de bicicleta, apesar de ainda não saber como se equilibrar sobre uma. A imagem surgia com facilidade: a bicicleta velha esquecida na garagem, encostada de lado, com a pintura vermelha desgastada e marcas de uso nos pedais. Era do filho de Kang Mi-sook, a noiva de seu pai. Ela havia testado o peso, passado a mão pelo guidão empoeirado, medindo possibilidades. Podia funcionar.
Empurrou a porta de vidro escuro. O sino preso acima do batente tilintou no instante em que ela entrou. Um som limpo, delicado, que pareceu se espalhar pelo espaço antes mesmo que ela desse o segundo passo.
O ruído não desapareceu de imediato. Ficou suspense por um segundo a mais do que deveria, tilintando outra vez quando a porta se fechou atrás dela. O ar fresco da rua se dissolveu rápido, substituído por um calor leve e um cheiro que misturava papel gasto, tinta e um doce artificial, similar àqueles algodões doce de parque.
Ali dentro, o mundo mudava de ritmo. As cores vinham primeiro. Em seguida, lombadas alinhadas em tons vibrantes, contrastando com volumes mais antigos, de páginas levemente amareladas, que carregavam o tempo no cheiro e na textura. Pequenas vitrines exibiam bonecos em poses congeladas, guardando histórias inteiras dentro de caixas transparentes. Havia bancos baixos, acolchoados, espalhados entre as estantes, convidando à permanência.
Uma trilha instrumental suave preenchia o espaço. Reconhecível, ainda que sem letras. Temas de K-dramas que se infiltravam no ambiente de forma discreta, envolvendo tudo numa sensação íntima e protegida.
A loja parecia existir à parte do resto da cidade. Ali dentro, outras vidas eram possíveis.
Do fundo do balcão, algo se moveu. Ou melhor, alguém.
Ele surgiu aos poucos, erguendo-se por trás de uma pilha instável de mangás, embalagens amassadas de salgadinhos e uma lata de refrigerante esquecida. Aquele caos era parte dele. Baixo, corpo rechonchudo e cabelo oleoso preso num rabo de cavalo curto. Os óculos de armação grossa escorregavam pelo nariz, exigindo pequenos ajustes automáticos. A camiseta do One Piece claramente menor que o necessário marcava a silhueta sem qualquer preocupação. Nas mãos, um pacote de Pocky. Ele mastigava devagar, sem pressa, alongando o próprio tédio. Nem levantou o olhar de imediato.
— Seja bem-vindo. — disse, a voz neutra, treinada, quase sem dono. — Se estiver procurando algo específico, tem um catálogo ali… — fez um gesto vago com o queixo, sem apontar de fato — …mas ninguém usa. — pausa, e mais uma mordida no Pocky. — Os shoujos ficam à direita. Os shounens mais ao fundo. Os manhwas têm uma seção só para eles, perto da máquina de refrigerante. E os hent— a palavra morreu no meio.
Ele ergueu os olhos.
Parou, avaliando com um propósito claro a figura que tinha emergido do nada.
Elowen estava ali, imóvel, segurando o sorvete de ube já começando a ceder nas bordas. O roxo vibrante contrastava com sua pele banhada pelo sol, e havia uma gota lenta descendo pelo dedo. Ela não parecia notar. Os olhos âmbar-esverdeados estavam fixos nele. Atentos e silenciosos. Involuntariamente curiosos.
Ele piscou uma vez. Depois, inclinou levemente a cabeça, talvez recalculando.
Sim, ele voltou atrás.
— Certo — respondeu, parecendo cansado daquele dia — fique à vontade, menina.
Então, o atendente mastigou outro Pocky com uma expressão que dizia “você que se vire”, e desapareceu atrás da pilha de revistas depois que seu corpo caiu feito chumbo na cadeira.
Elowen achou aquilo engraçado, aquela forma seca e meio arrogante de lidar com a noite, mas não deixou escapar nada. Nenhum som, nenhum sorriso. Só seguiu.
Aproximou-se da cortina bege de fios brilhantes no fundo da loja e, ao afastá-la com a ponta dos dedos, entrou em outro espaço. Talvez, num outro mundo.
Ali dentro, o lugar se expandia. Os corredores se organizavam como pequenos mundos independentes, estreitos o bastante para criar intimidade e ao mesmo tempo amplos o suficiente para não sufocar. Cada seção parecia ter uma identidade própria. Mangás alinhados com um cuidado milimétrico, lombadas coloridas formando sequências hipnóticas. Algumas edições japonesas, de capas limpas e discretas. Outras, traduzidas, mais chamativas, com ilustrações que saltavam aos olhos.
O cheiro era mais evidente ali. Papel novo, café suave e um doce leve. Algo entre leite condensado, baunilha e chá com mel. Não era enjoativo. Ficava no fundo da respiração, confortável.
Mais adiante, o espaço se abria em uma área diferente, como se tivesse sido escondida de propósito.
A seção de aluguel.
Pequenas cabines individuais, mesas baixas de madeira clara, divisórias leves que não eram paredes, e sim painéis que sugeriam privacidade sem isolar completamente. Algumas tinham almofadas no chão. Outras, cadeiras macias, com luminárias de luz quente direcionadas para páginas abertas.
Era um lugar para ficar.
Mas Elowen não ficou. Preferiu continuar andando. Passava os dedos pelas lombadas enquanto caminhava, escolhendo volumes pelo impulso, pela capa, pelo que chamava atenção no momento. Pegava um, observava, virava nas mãos, depois devolvia exatamente no lugar de onde tirou, mantendo a ordem intacta.
O sorvete já começava a ceder, pingando na ponta dos tênis. Ela levava à boca de vez em quando, pequenas lambidas para conter o derretimento, sentindo a casquinha amolecer levemente entre os dedos. O gosto doce ainda persistia, familiar agora.
Então aconteceu. O impacto foi seco.
O corpo dela parou de repente, interrompido por uma figura sólida à frente. O sorvete pressionou contra o obstáculo antes que ela pudesse reagir, a casquinha cedendo um pouco com a força.
Ela piscou, processando.
Era um moletom cinza com uma estampa em um idioma estrangeiro. Agora, com uma mancha roxa bem no centro.
Elowen ergueu o olhar devagar. Subiu. E continuou subindo.
O peito, os ombros… ainda não era o rosto. Ele era alto. Muito alto. A diferença era evidente demais para ser ignorada. Algo próximo de trinta centímetros, talvez mais. Não parecia exagero.
Quando finalmente encontrou o rosto, ela parou.
Um rapaz.
Não muito mais velho. Talvez da idade dela, dezesseis, ou um pouco além. Seus olhos puxados e intensos contrastavam com a aparente tranquilidade da expressão. O cabelo preto, dividido ao meio, mas arrumado de um jeito propositalmente desalinhado, como se tivesse sido bagunçado com intenção. O nariz reto. A boca equilibrada, a pele num tom branco e liso que lembrava uma vela nova. Tudo parecia no lugar. Era até irritante de ver.
Ele não disse nada. Só olhou. Parecia conseguir enxergar através de Elowen. Ou talvez nem ao menos tivesse notado que ela estava bem ali.
Elowen recuou um passo, o movimento automático vindo tarde demais. O olhar caiu de volta para o moletom. A mancha roxa se espalhava no tecido cinza aos poucos, irregular, ainda úmida, impossível de ignorar. Parecia uma tinta roxa se alastrando na fibra.
— Droga… — o resmungo dela escapou baixo, mais sentido do que dito.
Elowen passou o olhar rápido pelo borrão, como se ainda pudesse diminuir o estrago só encarando. Depois, ergueu o rosto de novo, tentando recompor a situação antes que o silêncio se tornasse pior.
— Olha, me desculpa mesmo. Eu estava distraída, não te vi… — fez uma pausa curta, os olhos subindo de novo pela altura dele, inevitável — apesar de você ser desse tamanho e não exatamente fácil de ignorar. — tentou um sorriso leve, quase conciliador. — Se quiser, pode me dar o moletom. Eu pago a lavanderia.
Nada.
Ele continuava olhando. Sem expressão. Sem reação. Nem um movimento mínimo que aliviasse o peso do momento.
O sorriso dela perdeu força, ficando torto e deslocado.
Aquilo estava sendo… constrangedor.
— Você… entende o que eu tô falando?
Silêncio.
O desconforto veio rápido, subindo pelo peito, apertando a garganta.
Elowen desviou o olhar por um segundo, como se precisasse se ouvir de fora para perceber o que estava fazendo.
— Joesonghabnida? — arriscou, o sotaque levemente hesitante.
Assim que disse, soube que fazia papel de idiota e sentiu a vergonha queimando nas bochechas. No entanto, a expressão dela se contraiu num sorriso amarelo, breve demais.
— Que idiota… — murmurou, agora para si mesma, passando a língua pelo canto da boca ainda doce de sorvete. — Não é porque ele tem olhos puxados que—
Interrompeu o próprio pensamento, incomodada, antes que fosse longe demais e deixasse escapar alguma merda escrota.
Respirou.
Tentou de novo, de um jeito mais simples.
— Eu… — apontou para si mesma com os polegares de pé, o gesto pequeno, meio infantilóide — sinto muito. De verdade. Prometo que vou dar um jeitinho nisso.
O rapaz permaneceu praticamente mudo. Observava-a de cima, amparado pela vantagem cruel da altura. O olhar firme, nunca agressivo. Só distante. Como se ela não merecesse sequer o esforço de uma palavra… supondo que ele tivesse cogitado dizer alguma coisa.
Então, piscou devagar. Os cílios se tocaram num movimento lento, quase preguiçoso. O olhar deslizou por cima da cabeça dela. De repente, algo atrás era momentaneamente mais interessante. Ou Elowen só tinha deixado de ser digna de atenção, se é que ele chegou a considerar isso.
E, sem dizer uma palavra, ele desviou. Passou por ela. O ombro quase roçou no dela dessa vez, mas ele não parou. Nem olhou para trás. Seguiu pelo corredor como se nada tivesse acontecido, o capuz repousando sobre a nuca, parte do cabelo preto escapando por cima.
Elowen ficou parada por um segundo a mais do que deveria. Depois se virou. Acompanhou com os olhos as costas dele se afastando.
A irritação veio junto com o calor no rosto.
— Que mal-educado de merda. — reclamou em voz baixa, mas firme. — Até uma criança perceberia que eu estava me desculpando. Não precisa ser nenhum gênio poliglota.
Ficou ali por um instante, o sorvete esquecido de novo na mão, enquanto o gosto doce começava a perder espaço para outra coisa.
"Que se dane também."
Se ele queria rejeitar a oferta, ela não poderia se importar menos com isso. O constrangimento daqueles instantes bastou. A dívida estava paga.
Elowen se moveu antes mesmo de pensar direito. Virou nos corredores com passos que quase saltavam no chão, o olhar passando pelas placas discretas e pelas portas meio escondidas, procurando qualquer indicação. Precisava de água corrente. De uma pia. De um lugar onde pudesse se livrar do sorvete antes que aquilo virasse outro problema.
Encontrou.
O banheiro ficava no fundo da loja, quase oculto atrás de uma divisória simples.
Empurrou a porta e entrou sem nem pensar.
O espaço era pequeno e discreto, mas bem cuidado. Tudo limpo e no lugar.
Elowen se aproximou da pia e descartou o que restava do sorvete. A casquinha já estava mole, cedeu fácil ao ser jogada fora. Abriu a torneira logo em seguida. A água fria bateu contra a pele, levando embora o roxo pegajoso que ainda grudava nos dedos.
Ela esfregou as mãos com mais atenção do que o necessário, como se pudesse apagar também o constrangimento que ainda estava ali, preso no corpo. Secou-as com papel toalha, pressionando levemente e sem pressa.
Respirou.
Quando levantou o rosto, encontrou o próprio reflexo. Os olhos ainda atentos, um traço de irritação misturado com algo mais sutil. Passou a mão pelos cabelos de forma rápida, organizando o que nem estava bagunçado.
Já tinha passado. Ou quase.
Saiu do banheiro e voltou para a loja, retomando o ritmo anterior com um pouco mais de controle.
Ainda tinha tempo. Um tempo só dela.
O jantar seria às oito. E, dessa vez, não era apenas mais uma refeição entre pai e filha. Ia finalmente conhecer o filho da noiva de seu pai. A nova peça daquela vida que, de repente, estava se reorganizando ao redor dela. Iriam morar juntos. Dividir a casa, os espaços, os horários. A mesma escola. Talvez a vida. Queria que aquilo desse certo. Pela primeira vez em muito tempo, o pai não parecia sozinho.
Elowen caminhou entre as estantes outra vez, mais devagar agora. E parou de repente. O olhar subiu, preciso, como se tivesse sido puxado por uma linha invisível e grossa, difícil de cortar.
Entre as prateleiras altas, um volume destoava dos demais. Capa preta, quase opaca, cortada por letras verdes intensas, vibrantes demais para passar despercebidas. Havia algo ali. Um tom diferente. Não era romance, nem ação. Era outra coisa. Mais atrativa.
Ela se esticou na ponta dos pés, o braço erguido, os dedos abrindo no ar até quase alcançá-lo. Quase. As pontas roçaram a capa, um toque leve demais para firmar.
Recuou um passo curto e tentou de novo. Dessa vez, pulou. O corpo ganhou impulso, os dedos bateram com mais força no volume, o suficiente para fazê-lo se mover alguns milímetros, mas não o bastante para puxá-lo. Ele permaneceu ali, provocador, fora de alcance.
Elowen soltou o ar pelo nariz, incomodada. Tentou uma terceira vez. Pulou com mais decisão, o corpo inteiro se projetando para cima. E, por um segundo, achou que conseguiria. Sentiu a borda do livro pressionar contra a ponta dos dedos, instável, mas escapou de novo.
Foi então que sentiu.
Primeiro, o calor. Depois, a presença. Uma sombra que não estava ali antes. Um deslocamento sutil no ar, perto demais.
O corpo dela reagiu antes da mente. Ficou imóvel, a respiração suspensa por um segundo curto, instintivo.
Alguém estava atrás dela. Muito perto.
Antes que pudesse se virar, uma mão surgiu acima da sua. Confiante. Ousada. Maldosa. Os dedos longos envolveram o volume com facilidade. A altura simplesmente não existia como obstáculo. O livro deslizou para fora da prateleira sem esforço, firme e decidido.
Simples. Fácil.
Elowen acompanhou o movimento com o olhar, ainda parada, o braço lentamente descendo ao lado do corpo.
A diferença entre tentar e conseguir nunca tinha sido tão óbvia.
Ela se virou de uma vez. Os olhos, ainda abertos demais, bateram primeiro na mancha roxa espalhada pelo moletom cinza. Maior agora, mais evidente.
O reconhecimento veio imediato. O corpo reagiu junto.
Ela inclinou a cabeça para trás, rápido, forçando o campo de visão até encontrar o rosto dele outra vez. Queria encarar. Queria pegar a reação, qualquer sinal.
Não teve tempo. Ele já estava se virando. O movimento foi simples e decidido, como se aquilo — o mangá, o encontro, ela — não exigisse mais nada. O volume firme na mão, os passos retomando o ritmo sem hesitar. Sem olhar para trás.
— Ei! — a voz de Elowen saiu num tom mais alto do que o esperado, cortando o silêncio do corredor.
Ele não parou. Seu jeito de andar era meio sofisticado demais, esquisito até.
— Ei, seu escroto de merda! — insistiu, agora avançando um passo, mas parando de novo, o corpo denunciando a irritação. — Eu achei esse primeiro. É meu.
Nada. Nenhuma pausa. Nenhuma reação. Ele continuou andando como se as palavras não tivessem peso suficiente para alcançá-lo. Nem dignidade.
Elowen sentiu antes de ver. Uma presença ao lado, próxima demais para ser ignorada, familiar demais para ser questionada.
Não precisou virar o rosto. Já sabia.
“Vai mesmo deixar aquele metido do caralho levar o mangá que você viu primeiro?”
A voz veio baixa, afiada e carregada de um desdém quase divertido.
Quando Elowen finalmente olhou para o lado, lá estava ela: braços cruzados, postura impecável e o nariz levemente empinado. Bonita de um jeito que chamava atenção sem esforço. Roupas bem escolhidas, maquiagem precisa, o cabelo caindo de forma propositalmente desordenada.
Igual a ela. Exatamente igual a ela.
